Arquiteta austríaca cria cozinha de 1,9 metros por 3,4 metros em 1926 e instala cerca de 10 mil unidades em Frankfurt que se tornam o modelo da cozinha embutida moderna

Em 1926, no auge da crise habitacional alemã do pós-guerra, uma arquiteta austríaca de 29 anos apresentou um espaço...

Por Valéria Cristina
Publicado em 18/8/2026 às 22h06
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Em 1926, no auge da crise habitacional alemã do pós-guerra, uma arquiteta austríaca de 29 anos apresentou um espaço de apenas 1,9 metro de largura por 3,4 metros de comprimento que mudaria para sempre a forma como as pessoas cozinham em apartamentos urbanos. Margarete Schütte-Lihotzky desenhou a Frankfurter Küche para o ambicioso programa New Frankfurt, liderado por Ernst May. O resultado foi a instalação de cerca de 10 mil unidades em conjuntos habitacionais sociais entre o final dos anos 1920 e o início dos anos 1930. Aquela cozinha compacta, completa com móveis e fogão, é considerada a primeira cozinha embutida da história e o ancestral direto das cozinhas planejadas que hoje dominam residências em todo o mundo.

A origem de um projeto racional e higiênico

A Alemanha da República de Weimar enfrentava escassez aguda de moradias. O movimento Neues Bauen defendia construções padronizadas, baratas, iluminadas e saudáveis. Schütte-Lihotzky, uma das poucas mulheres arquitetas em atividade na época, baseou-se em estudos de eficiência do trabalho de Frederick Taylor e Christine Frederick, além de influências do Bauhaus. O objetivo era reduzir ao mínimo os passos e movimentos da dona de casa, isolando odores e fumaça sem isolar completamente a pessoa que cozinhava.

A cozinha foi concebida como um posto de trabalho estreito, de “dupla fileira”, com uma porta de correr que a ligava à sala de jantar. Três variações foram desenvolvidas para se adaptar a diferentes formatos de apartamento. O custo de cada unidade equipada era de apenas algumas centenas de Reichsmarks, valor repassado aos aluguéis com aumento de apenas um marco por mês.

Materiais pensados para durabilidade e controle de pragas

As frentes de portas e gavetas de madeira receberam pintura azul porque pesquisas da época indicavam que as moscas evitavam superfícies dessa cor. Os recipientes de farinha foram feitos de carvalho, madeira que repele carunchos. As tampas de mesa usavam faia, resistente a manchas, ácidos e riscos. Gavetas de alumínio caracterizavam o projeto e muitas sobreviveram até os dias atuais. Havia também um banco giratório com rodízios, tábua de passar retrátil e uma gaveta de lixo removível. O fogão integrado era uma novidade na Alemanha da época.

Impacto e legados que atravessaram décadas

A maior parte das cozinhas originais foi substituída nas décadas de 1960 e 1970, quando superfícies plásticas e laminados se tornaram acessíveis. No final dos anos 1990, o interesse público renasceu. Exemplares originais ou reconstruções fiéis podem ser vistos hoje em museus de Frankfurt, no MAK de Viena, no Victoria and Albert Museum de Londres, no MoMA de Nova York e em várias outras instituições europeias e americanas. Em 2005, uma unidade foi adquirida pelo V&A e percorreu exposições internacionais. Algumas peças isoladas, como conjuntos de gavetas de alumínio, chegaram a ser negociadas por centenas de euros.

O desenho influenciou profundamente as cozinhas embutidas de habitação social na Alemanha e foi adaptado em países como Suécia e Suíça. Críticas feministas posteriores apontaram que o tamanho reduzido e a especialização para uma única pessoa acabavam isolando a dona de casa. Ainda assim, o princípio de racionalização do espaço de trabalho doméstico permanece vivo.

Conexão com o Brasil e a atualidade

No Brasil, a cozinha embutida só se popularizou de forma massiva a partir da verticalização urbana das décadas de 1970 e 1980. Antes disso, muitas residências ainda mantinham cozinhas separadas e menos padronizadas. A história de Schütte-Lihotzky mostra que a modernização do ambiente de preparo de alimentos nasceu de uma necessidade social concreta e de dados de ergonomia, não de tendências de decoração. Em um país onde apartamentos cada vez menores exigem soluções inteligentes de armazenamento e circulação, o exemplo de 1926 continua extremamente relevante.

A Frankfurter Küche não foi apenas um móvel. Foi um manifesto de como a arquitetura poderia melhorar a vida cotidiana das classes trabalhadoras por meio da ciência aplicada ao espaço doméstico. Quase um século depois, suas medidas exatas e seus princípios de eficiência ainda ecoam em projetos de cozinhas compactas em todo o planeta.



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Valéria Cristina
Valéria Cristina

Olá, sou a Valeria Cristina, idealizadora do blog de receitas Vó Naoca e como dá pra notar, neta orgulhosa de suas raízes. Hoje compartilho nesse projeto tudo aquilo que aprendi com a famosa Nair. Também faço questão de testar receitas da internet e compartilhar as melhores aqui no blog.




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