Arquiteto transforma mármore descartado de pedreiras em cozinha ao ar livre em Antuérpia e cozinha apenas por fermentação sem gás ou eletricidade
No jardim arborizado do Middelheim Museum, em Antuérpia, blocos de mármore que seriam descartados como resíduo de pedreiras foram...
Por Valéria CristinaPublicado em 18/8/2026 às 22h07

No jardim arborizado do Middelheim Museum, em Antuérpia, blocos de mármore que seriam descartados como resíduo de pedreiras foram transformados em uma cozinha funcional que não usa nem gás nem eletricidade. A Transspecies Kitchen, criada pelo arquiteto espanhol Andrés Jaque e pelo Office for Political Innovation, opera exclusivamente por processos de fermentação envolvendo bactérias e fungos. Inaugurada em julho de 2024 (após uma versão apresentada na Tallinn Architecture Biennale de 2022), a instalação permanece aberta ao público durante o verão europeu e realiza demonstrações ao vivo de preparo de alimentos.
O problema do desperdício que a cozinha resolve
Apenas cerca de 30% da pedra extraída em pedreiras é aproveitada industrialmente. O restante costuma ser tratado como rejeito. Jaque e sua equipe recolheram esses offcuts de diferentes tipos de mármore e os utilizaram quase sem alterações. Cada bloco recebeu cavidades específicas: uma estrutura de cinco braços destinada à preparação de kefir, outras reservadas a kombucha, pickles e diversos processos fermentativos. O resultado é uma cozinha que literalmente “come” o desperdício da indústria extrativa.
Como funciona a cocção zero-carbono
Em vez de fogo ou energia elétrica, a Transspecies Kitchen depende do metabolismo de microrganismos. Ingredientes cultivados ou forrageados localmente são colocados nas cavidades de mármore, onde bactérias e fungos realizam as transformações químicas necessárias. O projeto dilui as fronteiras entre cozinhar, comer e decompor, tratando esses processos como um continuum molecular compartilhado entre espécies humanas e não humanas. Jaque denomina essa relação de “Antwerphagia” — o ato de comer e ser comido pelos ecossistemas de Antuérpia.
Contexto político e ecológico
A instalação não é apenas um experimento estético. Ela questiona a lógica industrial de extração e descarte e propõe a fermentação como tecnologia ancestral de baixo impacto energético. Demonstrações públicas mostram pratos preparados sem qualquer combustível fóssil. O mármore, material tradicionalmente associado a luxo e permanência, é aqui usado em estado bruto, com texturas e irregularidades preservadas, reforçando a ideia de que a arquitetura pode operar com o mínimo de intervenção.
Limitações e horizontes
A cozinha depende de condições ambientais adequadas à fermentação e de conhecimento especializado sobre microrganismos. Não substitui todas as formas de cocção, mas demonstra que é possível preparar alimentos de maneira radicalmente descarbonizada. Sua permanência no museu durante o verão de 2024 permitiu testes reais de uso coletivo.
Aproximação com o Brasil
No Brasil, a fermentação tradicional — cachaça, queijos artesanais, conservas, tucupi, mandioca fermentada — ainda é frequentemente vista como prática caseira ou regional, e não como infraestrutura de preparo de alimentos em escala comunitária. A Transspecies Kitchen oferece um paralelo interessante para projetos de cozinhas coletivas em periferias urbanas ou comunidades rurais que buscam reduzir custos energéticos e reaproveitar resíduos de construção. Em um país com abundância de resíduos de pedras ornamentais e com forte tradição fermentativa, o exemplo belga sugere caminhos pouco explorados de design e sustentabilidade.
A obra de Andrés Jaque transforma o que seria lixo mineral em um espaço de aliança entre espécies e de experimentação política. Em tempos de emergência climática, ela lembra que a cozinha pode ser um laboratório de futuras formas de viver juntos.
Além da dimensão ecológica, a Transspecies Kitchen levanta questões sobre o que significa “cozinhar” em um planeta com recursos limitados. Ao colocar microrganismos no centro do processo, o projeto desloca o humano da posição de único agente e o coloca em relação de interdependência. As demonstrações públicas no Middelheim Museum permitiram que visitantes experimentassem sabores produzidos sem combustível, reforçando a dimensão educativa da instalação. O uso de mármore bruto, com suas veios e irregularidades, também desafia a estética de perfeição que costuma dominar o design de cozinhas contemporâneas.
No contexto brasileiro, onde a indústria de pedras ornamentais gera volumes significativos de rejeitos e onde a fermentação tradicional ainda é subvalorizada como tecnologia de preparo, o exemplo de Antuérpia pode inspirar iniciativas de reaproveitamento e de cozinhas comunitárias de baixo impacto. A combinação de resíduo mineral e metabolismo microbiano aponta para um caminho em que a cozinha deixa de ser apenas um espaço de consumo de energia e passa a ser um sistema de relações ecológicas e sociais.

