Chef Max Jaques: “Explore novas possibilidades” e descubra por que o feijão não precisa voltar à mesa sempre do mesmo jeito
O feijão costuma seguir uma rotina previsível. É cozido em água, recebe alho, cebola e sal, forma um caldo...
Por Valéria CristinaPublicado em 5/8/2026 às 23h28

O feijão costuma seguir uma rotina previsível. É cozido em água, recebe alho, cebola e sal, forma um caldo e acompanha arroz.
Essa preparação ocupa um lugar importante na alimentação brasileira e não precisa ser abandonada. Entretanto, repetir sempre a mesma forma pode fazer com que sobras se acumulem ou que o ingrediente pareça menos interessante.
No livro Segredos de Chef, Max Jaques propõe “explorar novas possibilidades” dentro da cozinha brasileira. Ele lembra que o feijão pode virar salada, pirão, caldinho, tutu e bolinho, enquanto o arroz pode ganhar legumes, brócolis, folhas, talos e preparações doces.
A criatividade sugerida pelo chef não depende de transformar cada refeição em alta gastronomia. Ela começa por reconhecer que um ingrediente cozido já representa uma base pronta.
O caldo e o grão podem seguir caminhos separados
Um feijão bastante caldoso funciona bem no prato cotidiano.
Para uma salada, porém, é necessário utilizar os grãos escorridos. Eles devem estar cozidos, mas ainda inteiros, para não se desfazerem durante a mistura.
Cebola, tomate, ervas, pimentão e um tempero ácido podem acompanhar. O sal precisa considerar aquilo que já foi utilizado no cozimento.
O caldo restante não precisa ser descartado. Pode se transformar em sopa, caldinho ou base para pirão.
Assim, uma panela produz duas preparações com texturas distintas.
O tutu não é apenas feijão engrossado
Tutu combina feijão, caldo e um ingrediente capaz de dar corpo, frequentemente farinha de mandioca ou de milho, conforme a tradição regional.
A farinha deve entrar aos poucos. Colocar grande quantidade de uma vez forma uma massa pesada e difícil de corrigir.
O feijão pode ser amassado ou batido antes, dependendo da textura desejada.
Temperos e acompanhamentos variam entre famílias e regiões. A técnica não possui uma única expressão legítima.
Essa diversidade é justamente parte da mensagem de Jaques: a cozinha brasileira oferece soluções construídas em diferentes territórios.
O bolinho exige controle da umidade
Sobras de feijão podem participar de bolinhos, mas uma massa muito líquida não mantém o formato.
É necessário escorrer, amassar e combinar com ingredientes que deem estrutura. Farinhas, ovos, legumes e temperos aparecem em diferentes versões.
Assar ou preparar na fritadeira elétrica produz resultado diferente da fritura por imersão. Nenhum método reproduz exatamente a mesma crosta.
O importante é evitar afirmar que toda versão assada será automaticamente leve ou equilibrada. A composição completa continua relevante.
O bolinho funciona principalmente como maneira de mudar textura e apresentação.
O caldinho aceita pequenas porções
Quando sobra mais líquido do que grãos, o caldinho pode ser servido em xícaras ou tigelas pequenas.
Bater parte do feijão aumenta a cremosidade. Alho, cebola, ervas e pimenta ajudam a construir aroma.
Ingredientes salgados, como bacon, linguiça e certos queijos, exigem cautela no ajuste final.
O caldo pode ser congelado em porções, desde que tenha sido resfriado e armazenado adequadamente.
Essa organização permite utilizá-lo em outro dia sem repetir imediatamente a mesma refeição.
Reaproveitar não significa guardar indefinidamente
Criatividade com sobras depende de segurança.
O feijão não deve permanecer durante horas sobre o fogão ou em temperatura ambiente. Depois da refeição, precisa ser resfriado e colocado na geladeira em recipiente apropriado.
Porções grandes demoram a perder calor. Dividi-las em potes menores acelera o resfriamento.
Ao reaquecer, a preparação deve ficar quente por inteiro. Repetir várias vezes o ciclo de aquecer e refrigerar aumenta perdas de qualidade e riscos.
Planejar as porções antes ajuda a retirar apenas o que será consumido.
A tradição não é uma receita parada
Transformar feijão em salada ou bolinho não significa desrespeitar o prato clássico.
A própria tradição brasileira nasceu de adaptações, disponibilidade regional e transmissão familiar.
O mesmo ingrediente ganhou feijoada, tutu, acarajé, baião, tropeiro, caldos e inúmeras outras formas.
“Explore novas possibilidades” é um convite para olhar a panela pronta sem enxergar apenas repetição.
O feijão do almoço pode continuar sendo feijão. No dia seguinte, porém, parte dele pode aparecer fria, crocante, espessa ou transformada em recheio.
A novidade não está necessariamente no ingrediente comprado. Pode estar no destino escolhido para aquilo que já estava dentro da cozinha.

