Estudo da UFMG com mais de 500 mil brasileiros aponta que deixar de comer feijão regularmente eleva em 20% o risco de obesidade e 10% o de excesso de peso
Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) analisou dados de mais de 500...
Por Valéria CristinaPublicado em 21/8/2026 às 21h42

Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) analisou dados de mais de 500 mil adultos brasileiros entre 2009 e 2019, coletados pelo sistema Vigitel do Ministério da Saúde. O resultado é direto e preocupante: pessoas que não consumiam feijão apresentaram 20% mais chances de desenvolver obesidade e 10% mais chances de estar com excesso de peso, em comparação com aquelas que comiam o grão de cinco a sete dias por semana.
Por outro lado, o consumo regular de feijão (cinco ou mais dias na semana) se mostrou protetor: 15% menos risco de obesidade e 14% menos risco de excesso de peso. O estudo, conduzido pela nutricionista Fernanda Serra Granado sob orientação do professor Rafael Moreira Claro, reforça o que a tradição culinária brasileira sempre soube de forma intuitiva: o feijão não é apenas um acompanhamento. É um marcador de qualidade da dieta e um aliado concreto contra o ganho de peso.
O feijão como marcador de dieta saudável
O feijão raramente é consumido sozinho. Quem come feijão com frequência tende a comer também arroz, hortaliças, algum tipo de proteína e a montar um prato mais equilibrado. Quando o feijão desaparece do cardápio, muitas vezes é substituído por opções ultraprocessadas, pães, massas instantâneas ou refeições rápidas de menor qualidade nutricional. O estudo da UFMG captura exatamente essa transição.
Os pesquisadores dividiram a frequência de consumo em quatro categorias: não consumo (zero dias), baixo (1-2 dias), moderado (3-4 dias) e regular (5-7 dias). A análise ajustou para diversos fatores de confusão e ainda assim encontrou a associação robusta. Além disso, o trabalho identificou uma tendência de queda no consumo regular de feijão ao longo dos anos analisados, com projeção de que, se a curva se mantiver, menos da metade dos brasileiros consumirá o grão de forma regular em poucos anos.
Por que o feijão protege
Do ponto de vista nutricional, o feijão é rico em fibras solúveis e insolúveis, proteínas vegetais, ferro, zinco, magnésio e vitaminas do complexo B. As fibras aumentam a saciedade, retardam a absorção de glicose e ajudam no controle do colesterol. A combinação clássica arroz + feijão fornece um perfil de aminoácidos complementar, elevando a qualidade proteica da refeição.
Estudos da Embrapa e de outras instituições brasileiras já demonstraram a complementaridade nutricional do prato feito. O trabalho da UFMG acrescenta a dimensão epidemiológica populacional: em escala nacional, manter o feijão na mesa está associado a menor risco de excesso de peso e obesidade.
O contexto da queda do consumo
Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares e do Vigitel mostram que o brasileiro está comendo menos arroz, menos feijão e menos hortaliças, enquanto aumenta o consumo de ultraprocessados. O feijão, que já foi quase onipresente no almoço e no jantar, hoje disputa espaço com opções mais práticas e industrializadas. A perda não é apenas cultural; é nutricional e metabólica.
Em regiões e faixas de renda onde o feijão permanece forte, os indicadores de excesso de peso tendem a ser melhores. A pesquisa da UFMG quantifica essa relação de forma clara e com amostra enorme.
Limitações e cuidados na interpretação
Como se trata de estudo observacional baseado em inquérito telefônico, não é possível afirmar causalidade absoluta. Pessoas que comem feijão regularmente podem ter outros hábitos saudáveis que também influenciam o peso. Ainda assim, o tamanho da amostra, o período de dez anos e os ajustes estatísticos tornam os resultados robustos e consistentes com o conhecimento nutricional acumulado.
O estudo não recomenda consumo diário obrigatório para todos. O benefício aparece de forma mais clara a partir de cinco dias por semana, mas mesmo frequências moderadas já são melhores do que a ausência total.
Aplicações práticas e políticas públicas
Para as famílias, a mensagem é simples: mantenha o feijão no cardápio o maior número de dias possível. Não precisa ser sempre o mesmo tipo. Feijão preto, carioca, fradinho, mulatinho, lentilha e grão-de-bico desempenham papéis semelhantes. O preparo pode ser feito em maior quantidade e congelado, facilitando o dia a dia.
Para escolas, restaurantes populares, refeitórios de empresas e programas de alimentação do trabalhador, priorizar o feijão é uma estratégia de baixo custo e alto impacto potencial. Políticas de incentivo à produção e ao consumo de leguminosas também ganham reforço científico com esses dados.
Conclusão
O feijão continua sendo um dos alimentos mais emblemáticos da cozinha brasileira. A pesquisa da UFMG mostra que ele também é um dos mais protetores contra o excesso de peso e a obesidade. Deixar de comê-lo regularmente eleva o risco em 20% para obesidade e 10% para excesso de peso. Manter o hábito de cinco a sete dias por semana reduz esses riscos de forma mensurável.
Em um país que enfrenta o crescimento da obesidade e a substituição progressiva da dieta tradicional por ultraprocessados, o feijão emerge novamente como símbolo e solução. Simples, acessível, nutritivo e agora cientificamente associado à proteção do peso corporal. A cozinha de casa e a ciência caminham juntas nesse caso.
Detalhes do método e da amostra
O Vigitel realiza entrevistas telefônicas anuais com adultos em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal. A pesquisadora utilizou os dados de 2009 a 2019, totalizando mais de meio milhão de entrevistas. A pergunta sobre frequência de consumo de feijão é padronizada e permite a categorização clara usada no estudo. Análises de regressão logística ajustaram para idade, sexo, escolaridade, estado civil, região, atividade física, tabagismo e outros fatores relevantes.
Mesmo após esses ajustes, a associação permaneceu significativa. Isso reduz a chance de que o resultado seja apenas reflexo de outros comportamentos saudáveis correlacionados.
Comparação com outros estudos e o papel das leguminosas
Pesquisas internacionais também associam o consumo regular de leguminosas a melhor controle de peso, menor risco de diabetes tipo 2 e melhor perfil lipídico. O diferencial do trabalho da UFMG é a escala nacional brasileira e o foco específico no feijão, o legume mais consumido no país. Em contextos onde o feijão é o principal legume da dieta, a ausência dele representa uma perda nutricional maior do que em países onde outras leguminosas compensam.
A combinação arroz e feijão, além da complementaridade de aminoácidos, oferece um índice glicêmico moderado e alta densidade de nutrientes por caloria, características favoráveis à saciedade e ao controle de peso.
Tendência de queda e projeções
O estudo também documentou a tendência de redução do consumo regular. Em 2012, cerca de 67,5% dos entrevistados consumiam feijão de cinco a sete dias por semana. Em 2017 o percentual já havia caído para 59,5%. As projeções indicavam que, mantido o ritmo, a marca de 50% seria cruzada em poucos anos. Essa transição coincide com o aumento da obesidade e do consumo de ultraprocessados, formando um quadro coerente de mudança do padrão alimentar brasileiro.
Recomendações práticas para diferentes contextos
Para quem tem pouco tempo: cozinhar feijão em quantidade maior no fim de semana e congelar em porções individuais. Para quem come fora: escolher restaurantes que ainda oferecem feijão no buffet ou no prato feito. Para famílias com crianças: apresentar o feijão de formas variadas (caldo, tutu, salada fria, feijoada light) para manter o hábito desde cedo.
Nutricionistas e médicos podem usar o dado de 20% de aumento de risco como argumento concreto em consultas, reforçando a importância de manter o legume na dieta em vez de apenas contar calorias ou macronutrientes isolados.
Conclusão ampliada
O feijão não é apenas tradição. É proteção mensurável contra o excesso de peso e a obesidade em escala populacional. A pesquisa da UFMG, com mais de 500 mil brasileiros, quantificou o que a cozinha de casa já praticava: quem mantém o feijão na mesa com regularidade tem menos risco de ganhar peso excessivo. Em tempos de ultraprocessados e de corrida contra o relógio, resgatar esse hábito é uma das ações mais simples, baratas e eficazes disponíveis para a saúde coletiva e individual.
Fontes: estudo da Faculdade de Medicina da UFMG (Fernanda Serra Granado et al.); dados do Vigitel/Ministério da Saúde; publicações da Embrapa e Guia Alimentar para a População Brasileira; análises complementares de tendências de consumo.

