Forno de terra havaiano e maori enterra comida com pedras quentes e folhas por horas e produz carne extremamente macia
Nas ilhas do Pacífico, duas tradições paralelas de cocção em forno de terra sobreviveram até hoje: o imu havaiano...
Por Valéria CristinaPublicado em 19/8/2026 às 22h34

Nas ilhas do Pacífico, duas tradições paralelas de cocção em forno de terra sobreviveram até hoje: o imu havaiano e o hangi maori da Nova Zelândia. Em ambos os casos, um buraco é cavado no solo, pedras são aquecidas até ficarem incandescentes, a comida (geralmente carne, peixe e vegetais) é envolvida em folhas, colocada sobre as pedras e coberta com terra.
O conjunto fica enterrado por várias horas — às vezes um dia inteiro. O resultado é uma carne extraordinariamente macia e suculenta, cozida no próprio vapor e no calor residual das pedras.
Como funciona o método
As pedras precisam ser escolhidas com cuidado: algumas explodem com o choque térmico. Depois de aquecidas em fogueira, são dispostas no fundo do buraco. A comida, envolta em folhas de bananeira, ti ou outras espécies locais, é colocada sobre elas. Camadas de folhas e, por fim, terra selam o forno. O vapor gerado pelo contato das folhas úmidas com as pedras quentes cozinha tudo de forma lenta e uniforme. Não há fogo direto depois que a terra é colocada.
Continuidade cultural
Tanto no Havaí quanto na Nova Zelândia, o imu e o hangi continuam sendo usados em celebrações familiares, festas comunitárias e eventos turísticos. São mais do que técnicas de cocção: são rituais sociais. Preparar um hangi ou um imu envolve trabalho coletivo e espera. A abertura do forno é um momento de expectativa e festa.
Limitações
O método exige tempo, espaço e conhecimento do terreno. Não é prático para o dia a dia urbano. O controle de temperatura é impreciso em comparação com fogões modernos. Ainda assim, o sabor e a textura obtidos são difíceis de replicar de outra forma.
Aproximação com o Brasil
No Brasil, fornos de terra e de pedra existem em tradições indígenas e em algumas regiões rurais. A lógica de cocção lenta com calor residual e vapor também aparece em técnicas de moqueca e de assados em folhas. O imu e o hangi mostram uma versão extrema e ritualizada dessa abordagem, em que a terra se torna o próprio forno.
Esses fornos de terra do Pacífico lembram que a cocção lenta e coletiva é uma das tecnologias alimentares mais antigas e persistentes da humanidade. Em tempos de busca por sabores intensos e por métodos de baixo consumo energético, eles continuam relevantes.
A profundidade histórica dessas práticas e espaços de cozinha revela que a inovação culinária raramente nasce do zero. Ela se apoia em soluções antigas, em adaptações locais e em uma compreensão íntima dos materiais, do clima e das relações sociais. No Brasil, onde a diversidade de tradições indígenas, africanas, europeias e asiáticas convive com desafios contemporâneos de densidade urbana, de sustentabilidade e de acesso a recursos, essas histórias oferecem tanto inspiração quanto lições práticas de resiliência, eficiência e respeito pelo tempo e pelos ingredientes. Cada uma delas, à sua maneira, mostra que a cozinha é muito mais do que um ambiente de preparo de alimentos: é um espelho da sociedade que a produz.
Além disso, a permanência ou o reaparecimento dessas técnicas e organizações de cozinha em contextos contemporâneos demonstra sua vitalidade. Seja pelo interesse turístico, pela busca de eficiência energética, pela valorização de patrimônios culturais ou pela necessidade de soluções para espaços compactos, elas continuam dialogando com as demandas do presente. A cozinha, afinal, é um dos ambientes mais sensíveis às mudanças sociais, econômicas e tecnológicas — e, ao mesmo tempo, um dos mais resistentes em suas formas fundamentais de transformar o alimento.
Essas histórias, quando aproximadas do público brasileiro, ganham novas camadas de sentido. Elas permitem comparar soluções de diferentes épocas e continentes com as práticas locais, revelando tanto a universalidade de certos problemas (espaço, energia, tempo, hierarquia, coletivismo) quanto a singularidade das respostas encontradas em cada cultura. O resultado é um repertório ampliado de possibilidades para pensar a cozinha do presente e do futuro.
A documentação cuidadosa dessas práticas e espaços, com números, datas e contextos verificáveis, é essencial para que elas não se percam no terreno das curiosidades superficiais. Cada uma delas carrega lições concretas sobre eficiência, convivência, adaptação e inventividade — lições que permanecem úteis muito além de seu tempo e de seu lugar de origem.

