James Sharp patenteia o fogão a gás em 1826 e Alexis Soyer o transforma na cozinha do Reform Club de Londres
Durante milênios a cozinha dependeu de madeira, carvão ou turfa. Em 1826, James Sharp, da Northampton Gas Company, patenteou...
Por Valéria CristinaPublicado em 20/8/2026 às 22h06

Durante milênios a cozinha dependeu de madeira, carvão ou turfa. Em 1826, James Sharp, da Northampton Gas Company, patenteou um fogão a gás funcional na Inglaterra. Em 1836 ele já produzia unidades comercialmente. O verdadeiro impulso veio quando o famoso chef Alexis Soyer, do Reform Club de Londres, converteu sua cozinha para gás a partir de 1841. Soyer argumentava que o gás era mais barato porque podia ser desligado quando não estava em uso — algo impossível com fogões a carvão permanentemente acesos.
A adoção gradual
Os primeiros fogões a gás eram grandes e pouco práticos. A difusão só acelerou nas décadas de 1880, quando as redes de gás se espalharam pelas cidades britânicas e esquemas de aluguel tornaram o aparelho acessível. Em 1851 um fogão a gás foi exibido na Grande Exposição de Londres. No continente europeu e nos Estados Unidos a adoção em massa veio no início do século XX. O termostato de forno a gás apareceu em 1923 e o esmalte para facilitar a limpeza em 1928.
Impacto na cozinha
O gás trouxe controle preciso de chama, acendimento rápido e eliminação da fuligem constante do carvão. A cozinha doméstica e profissional ganhou agilidade. Soyer, que cozinhou centenas de quilos de carne em demonstrações públicas, ajudou a popularizar a tecnologia ao provar sua eficiência em grande escala.
Limitações iniciais
Os primeiros modelos eram perigosos e a infraestrutura de gás ainda era irregular. O cheiro de gás e o risco de vazamento geravam desconfiança. Ainda assim, a praticidade venceu.
Aproximação com o Brasil
No Brasil, o fogão a gás se tornou o padrão das cozinhas urbanas a partir de meados do século XX e permanece dominante. A história de Sharp e Soyer mostra que a transição do combustível sólido para o gás foi um processo longo, ligado à infraestrutura urbana e à persuasão de chefs influentes.
O fogão a gás de James Sharp e a adoção por Alexis Soyer marcam o momento em que a cozinha começou a se desvincular da lenha e do carvão de forma definitiva, abrindo caminho para o controle fino de temperatura que conhecemos hoje.
A profundidade histórica e a continuidade prática dessas formas de organizar e operar a cozinha revelam que a inovação culinária raramente começa do zero. Ela se apoia em soluções antigas, em adaptações locais e em uma compreensão íntima dos materiais, do clima, da energia e das relações sociais. No Brasil, onde a diversidade de tradições indígenas, africanas, europeias e asiáticas convive com desafios contemporâneos de densidade urbana, de sustentabilidade e de acesso a recursos, essas histórias oferecem tanto inspiração quanto lições práticas de resiliência, eficiência e respeito pelo tempo e pelos ingredientes. Cada uma delas, à sua maneira, mostra que a cozinha é muito mais do que um ambiente de preparo de alimentos: é um espelho da sociedade que a produz e um laboratório permanente de adaptação.
Além disso, a permanência ou o reaparecimento dessas técnicas e organizações de cozinha em contextos contemporâneos demonstra sua vitalidade. Seja pelo interesse turístico, pela busca de eficiência energética, pela valorização de patrimônios culturais ou pela necessidade de soluções para espaços compactos ou extremos, elas continuam dialogando com as demandas do presente. A cozinha, afinal, é um dos ambientes mais sensíveis às mudanças sociais, econômicas e tecnológicas — e, ao mesmo tempo, um dos mais resistentes em suas formas fundamentais de transformar o alimento.
Essas histórias, quando aproximadas do público brasileiro, ganham novas camadas de sentido. Elas permitem comparar soluções de diferentes épocas e continentes com as práticas locais, revelando tanto a universalidade de certos problemas (espaço, energia, tempo, hierarquia, coletivismo, isolamento) quanto a singularidade das respostas encontradas em cada cultura. O resultado é um repertório ampliado de possibilidades para pensar a cozinha do presente e do futuro. A documentação cuidadosa dessas práticas e espaços, com números, datas e contextos verificáveis, é essencial para que elas não se percam no terreno das curiosidades superficiais.

