Restaurante Under na Noruega coloca a cozinha 5,5 metros abaixo do nível do mar e serve 40 pessoas com vista para o fundo do oceano
No extremo sul da Noruega, no vilarejo de Spangereid, um tubo de concreto de 34 metros de comprimento penetra...
Por Valéria CristinaPublicado em 20/8/2026 às 22h00

No extremo sul da Noruega, no vilarejo de Spangereid, um tubo de concreto de 34 metros de comprimento penetra o mar em ângulo de 20 graus. Cinco metros e meio abaixo da superfície fica o salão principal do restaurante Under, o maior restaurante submarino do mundo e o único da Europa. A cozinha opera no mesmo nível, sob pressão da água do Mar do Norte, com uma janela de 11 metros de largura que transforma o fundo do oceano no cenário permanente das refeições.
A construção e a logística
O edifício foi construído em uma barcaça, selado, flutuado até o local e depois inundado para afundar na posição correta. Depois de ancorado no leito marinho, a água foi retirada e o interior foi finalizado. As paredes de concreto têm 50 centímetros de espessura. O projeto é da firma Snøhetta e o custo total chegou a cerca de 70 milhões de coroas norueguesas. A cozinha precisa lidar com a umidade, a pressão e a logística de abastecimento em um ambiente extremo. O chef dinamarquês Nicolai Ellitsgaard lidera uma equipe que trabalha com ingredientes hiperlocais, muitos pescados a poucos quilômetros ou metros do próprio restaurante.
O cardápio e a experiência
O menu de degustação tem entre 18 e 22 pratos e conquistou uma estrela Michelin em menos de um ano de funcionamento. O restaurante também funciona como laboratório marinho: a estrutura cria um recife artificial que atrai vida marinha e permite pesquisas. A luz azul-esverdeada que entra pela grande janela define a atmosfera. Os 40 lugares são ocupados com meses de antecedência.
Limitações e desafios
Operar uma cozinha sob o mar exige sistemas robustos de ventilação, aquecimento, água e esgoto. Qualquer falha estrutural ou de isolamento teria consequências graves. O acesso é limitado e o custo operacional é elevado. Ainda assim, o Under se tornou um dos destinos gastronômicos mais desejados da Europa.
Aproximação com o Brasil
No Brasil, a costa e a biodiversidade marinha são enormes, mas experiências de restaurantes submarinos ou semissubmersos ainda são raras. O exemplo norueguês mostra como a arquitetura extrema pode criar uma nova relação entre a cozinha e o ambiente natural. Em um país com forte tradição de frutos do mar, a ideia de cozinhar e servir literalmente dentro do oceano abre possibilidades de turismo e de pesquisa.
O Under não é apenas um restaurante. É uma declaração de que a cozinha pode ocupar espaços que antes pareciam impossíveis e, ao mesmo tempo, devolver algo ao ecossistema que a cerca.
A profundidade histórica e a continuidade prática dessas formas de organizar e operar a cozinha revelam que a inovação culinária raramente começa do zero. Ela se apoia em soluções antigas, em adaptações locais e em uma compreensão íntima dos materiais, do clima, da energia e das relações sociais.
No Brasil, onde a diversidade de tradições indígenas, africanas, europeias e asiáticas convive com desafios contemporâneos de densidade urbana, de sustentabilidade e de acesso a recursos, essas histórias oferecem tanto inspiração quanto lições práticas de resiliência, eficiência e respeito pelo tempo e pelos ingredientes. Cada uma delas, à sua maneira, mostra que a cozinha é muito mais do que um ambiente de preparo de alimentos: é um espelho da sociedade que a produz e um laboratório permanente de adaptação.
Além disso, a permanência ou o reaparecimento dessas técnicas e organizações de cozinha em contextos contemporâneos demonstra sua vitalidade. Seja pelo interesse turístico, pela busca de eficiência energética, pela valorização de patrimônios culturais ou pela necessidade de soluções para espaços compactos ou extremos, elas continuam dialogando com as demandas do presente. A cozinha, afinal, é um dos ambientes mais sensíveis às mudanças sociais, econômicas e tecnológicas — e, ao mesmo tempo, um dos mais resistentes em suas formas fundamentais de transformar o alimento.
Essas histórias, quando aproximadas do público brasileiro, ganham novas camadas de sentido. Elas permitem comparar soluções de diferentes épocas e continentes com as práticas locais, revelando tanto a universalidade de certos problemas (espaço, energia, tempo, hierarquia, coletivismo, isolamento) quanto a singularidade das respostas encontradas em cada cultura. O resultado é um repertório ampliado de possibilidades para pensar a cozinha do presente e do futuro. A documentação cuidadosa dessas práticas e espaços, com números, datas e contextos verificáveis, é essencial para que elas não se percam no terreno das curiosidades superficiais.

