A churrascaria gaúcha que mudou a forma de servir carne ao levar o espeto inteiro até a mesa há mais de 70 anos
Hoje, entrar em uma churrascaria e observar garçons circulando com grandes espetos de carne parece uma experiência perfeitamente comum....
Por Valéria CristinaPublicado em 3/8/2026 às 08h21

Hoje, entrar em uma churrascaria e observar garçons circulando com grandes espetos de carne parece uma experiência perfeitamente comum. O cliente permanece sentado, escolhe o corte e recebe a porção ainda quente diretamente no prato.
No entanto, esse modelo de atendimento precisou ser criado em algum momento.
Uma das histórias pioneiras do chamado espeto corrido nasceu em Sapiranga, no Rio Grande do Sul, onde a Churrascaria Matias mantém uma tradição iniciada na década de 1950. Fundado oficialmente em 1954, o estabelecimento afirma ter ajudado a transformar uma solução prática em um dos símbolos mais reconhecidos da gastronomia brasileira.
A carne antes era deixada sobre a mesa
Segundo a história preservada pela própria churrascaria, Edwino Guilherme Mates, conhecido como Matias, trabalhava como ecônomo do CTG Pedro Serrano no começo dos anos 1950.
Naquele período, já existia na cidade uma forma de serviço em que o espeto era colocado sobre a mesa. Edwino adaptou a ideia: em vez de abandonar a carne diante dos clientes, ele circulava pelo salão, retirava lascas para cada pessoa e levava o espeto novamente à churrasqueira.
A mudança resolvia um problema importante. Como a carne retornava ao fogo, permanecia aquecida durante mais tempo. Os clientes também podiam receber porções menores e repetir conforme a vontade, sem que um grande pedaço esfriasse sobre a mesa.
Essa lógica simples contém a estrutura básica do rodízio conhecido atualmente.
Os primeiros espetos tinham poucas opções
O espeto corrido moderno costuma impressionar pela variedade. Em algumas churrascarias, aparecem picanha, maminha, costela, frango, linguiça, cordeiro, cupim, coração e até queijo ou abacaxi.
No início, o cardápio era bem mais modesto.
A narrativa da Churrascaria Matias informa que as primeiras opções incluíam principalmente carne bovina, com destaque para a costela, além de costelinha de porco passada na farinha e salsichão. Salada e pão completavam a refeição.
Com o passar dos anos, chegaram lombinho de porco, galeto, cortes considerados mais nobres e uma quantidade maior de acompanhamentos. As cubas de buffet, hoje tão associadas às grandes churrascarias, apareceriam apenas posteriormente.
Atualmente, a casa anuncia mais de 25 cortes no espeto corrido, servidos com acompanhamentos à mesa.
O sistema também ajudava a evitar desperdício
Levar os espetos às mesas não era apenas uma apresentação chamativa. O sistema permitia controlar melhor a quantidade entregue a cada cliente.
Em vez de preparar um prato completo antes de saber quanto a pessoa desejava comer, o garçom cortava uma pequena porção. O cliente podia aceitar, recusar ou aguardar a passagem de outro corte.
Uma reportagem regional sobre a história da Matias relata que a experiência ganhou força durante um evento cheio, quando o atendimento convencional não conseguia acompanhar todas as mesas. Servir diretamente dos espetos teria mantido a carne quente e reduzido desperdícios.
O improviso, portanto, reunia três vantagens: agilidade, temperatura e liberdade de escolha.
Uma solução local que ganhou o mundo
Existem diferentes narrativas sobre a origem exata do rodízio brasileiro. Outra versão conhecida atribui sua criação a uma churrascaria de Jacupiranga, em São Paulo, durante a década de 1960. A própria história da Matias reconhece que sua adaptação foi inspirada por uma prática de serviço que já existia em Sapiranga. Por isso, a origem pode variar conforme a definição adotada para “rodízio” ou “espeto corrido”.
O que torna o caso gaúcho curioso é sua antiguidade documentada e a continuidade do estabelecimento. Mais de sete décadas depois da fundação, a carne ainda percorre o salão no espeto, repetindo um movimento iniciado quando alguém percebeu que servir pequenas lascas e devolver o restante ao fogo poderia melhorar toda a refeição.
Uma solução criada para facilitar o atendimento acabou se tornando uma experiência gastronômica reconhecida dentro e fora do Brasil.

Olá, sou a Valeria Cristina, idealizadora do blog de receitas Vó Naoca e como dá pra notar, neta orgulhosa de suas raízes. Hoje compartilho nesse projeto tudo aquilo que aprendi com a famosa Nair. Também faço questão de testar receitas da internet e compartilhar as melhores aqui no blog.
