Chef Dadá: “Eu acho que têm mais gosto” e a pergunta que realmente importa ao escolher vegetais orgânicos
A chef Dadá afirma utilizar vegetais muito frescos em pratos como moqueca e bobó e diz apostar especialmente em...
Por Valéria CristinaPublicado em 4/8/2026 às 21h55
A chef Dadá afirma utilizar vegetais muito frescos em pratos como moqueca e bobó e diz apostar especialmente em ingredientes orgânicos. Em seu relato no livro Segredos de Chef, ela acrescenta: “Eu acho que têm mais gosto”.
A percepção é compreensível. Tomates colhidos maduros, folhas recém-compradas e ervas aromáticas bem conservadas podem produzir uma experiência muito diferente daquela oferecida por ingredientes armazenados durante longos períodos.
Entretanto, atribuir todo o sabor apenas ao selo orgânico simplifica uma questão mais ampla.
Variedade, maturação, solo, clima, tempo desde a colheita, transporte e forma de armazenamento podem interferir tanto quanto o sistema de produção.
Por isso, a pergunta útil não é apenas “é orgânico?”. Também vale perguntar: está fresco, é da estação e foi bem conservado?
Orgânico descreve o modo de produção
Um alimento orgânico é produzido de acordo com regras específicas, relacionadas ao manejo do solo, uso de insumos e práticas de cultivo.
O termo não significa que o vegetal foi colhido naquela manhã, que possui sabor mais intenso ou que será obrigatoriamente superior em todos os nutrientes.
Um tomate orgânico colhido antes do ponto e transportado por longa distância pode ser menos saboroso do que um tomate convencional maduro produzido perto do consumidor.
Da mesma forma, um produto local não é automaticamente orgânico.
As categorias se cruzam, mas não são sinônimas.
A variedade pode alterar mais o sabor do que a aparência
Existem tomates desenvolvidos para transporte, outros valorizados pela doçura e alguns escolhidos pela resistência.
Cenouras, abóboras, batatas e folhas também possuem variedades com diferenças de textura, aroma e composição.
Quando o consumidor compara dois produtos sem conhecer essas características, pode atribuir ao método de cultivo aquilo que pertence à variedade.
O ponto de maturação amplia essa diferença. Frutas e legumes colhidos cedo suportam melhor o transporte, mas nem sempre desenvolvem o mesmo sabor.
É por isso que feiras e produtores próximos podem oferecer experiências marcantes, independentemente do rótulo.
Frescor também depende do que acontece em casa
Comprar um vegetal excelente e deixá-lo esquecido em uma sacola fechada pode comprometer rapidamente sua qualidade.
Folhas precisam de controle de umidade. Cogumelos se deterioram quando permanecem presos em condensação. Tomates muito maduros devem ser consumidos logo.
Ervas delicadas perdem aroma com o tempo, mesmo quando ainda parecem visualmente aceitáveis.
Planejar as refeições antes da compra reduz desperdício e permite utilizar primeiro os ingredientes mais frágeis.
O produto mais caro não é vantajoso quando metade termina no lixo.
A aparência perfeita pode enganar
Pequenas variações de tamanho, formato ou cor não significam baixa qualidade.
Vegetais cultivados com menos padronização podem apresentar diferenças visuais e continuar adequados ao consumo.
Por outro lado, machucados profundos, mofo, cheiro desagradável e áreas viscosas não devem ser romantizados como sinais de naturalidade.
A escolha precisa separar imperfeição estética de deterioração real.
Uma cenoura torta pode estar ótima. Uma folha pegajosa e com odor alterado não está.
O sabor nasce também na panela
A chef menciona moqueca e ensopado de vegetais, preparações nas quais os ingredientes são combinados com aromáticos, gordura, calor e tempo.
Mesmo um vegetal muito fresco pode perder identidade se for cozido demais. Da mesma forma, ingredientes simples ganham intensidade quando são dourados, assados ou adicionados no momento correto.
Cebola e alho precisam de atenção para não queimar. Vegetais com tempos diferentes não devem necessariamente entrar juntos na panela.
Abóbora e batata demoram mais do que folhas e ervas. Colocar tudo ao mesmo tempo pode produzir alguns ingredientes desmanchados e outros ainda firmes.
Orgânico pode ser uma escolha, não uma obrigação moral
Há razões ambientais, sociais e pessoais para preferir produtos orgânicos.
O acesso, porém, varia conforme cidade, renda e disponibilidade. Uma alimentação baseada em vegetais convencionais bem higienizados não deve ser tratada como inadequada por não possuir determinado selo.
Também não é necessário abandonar o consumo de frutas e verduras por receio de não encontrar versões orgânicas.
A variedade do prato, o preparo e a frequência continuam importantes.
A afirmação de Dadá sobre o sabor funciona melhor como convite à observação do que como regra científica.
Experimente comparar produtos da mesma variedade e em ponto semelhante. Observe aroma, textura, origem e tempo de armazenamento.
Talvez o orgânico pareça mais saboroso. Talvez a diferença principal venha do frescor.
O mais interessante é descobrir que o gosto do vegetal começa no cultivo, mas não termina nele.

