Cozinha medieval construída nos anos 1360 em castelo inglês funcionou continuamente até a década de 1950 e ainda preserva utensílios de cobre originais
No Raby Castle, em County Durham, no nordeste da Inglaterra, a Great Kitchen ocupa uma torre inteira construída por...
Por Valéria CristinaPublicado em 18/8/2026 às 22h29

No Raby Castle, em County Durham, no nordeste da Inglaterra, a Great Kitchen ocupa uma torre inteira construída por volta de 1360-1370, provavelmente sob a direção do mestre pedreiro John Lewyn. O espaço funcionou como cozinha ativa até a década de 1950 — quase seis séculos de uso contínuo. Ainda hoje é possível ver as quatro grandes fornalhas originais, a abóbada com lanterna octogonal central que tirava fumaça e calor, e uma impressionante coleção de panelas e moldes de cobre.
Arquitetura pensada para o fogo e a defesa
A cozinha foi erguida como estrutura relativamente separada do corpo principal do castelo para reduzir o risco de incêndio e evitar que odores chegassem às áreas nobres. Passagens internas nas paredes grossas permitiam o serviço de alimentos para o Barons’ Hall e, ao mesmo tempo, ofereciam posições defensivas com seteiras (depois transformadas em janelas). O teto abobadado com lanterna central é semelhante ao da cozinha da Catedral de Durham, construída na mesma época.
Como se cozinhava no século XIV
Originalmente, a cocção era feita em quatro fogos abertos. Carnes eram assadas em espetos girados por meninos ou por cães de raça especial (turnspit dogs) em rodas. No século XIX, um dos fogos foi substituído por um fogão de ferro fundido que usava a convecção do calor da chaminé para girar o espeto automaticamente. No século XX, um fogão mais moderno foi instalado, mas o contorno da lareira medieval permanece visível atrás dele.
Continuíade e adaptações
A cozinha alimentou gerações da família Neville e, depois, da família Vane (atuais Lordes Barnard). Em 1954 ela deixou de ser usada para preparo diário, mas permanece como um dos espaços mais autênticos e impressionantes do castelo, aberto a visitantes. A coleção de utensílios de cobre, muitos ainda originais ou de períodos históricos posteriores, dá dimensão visual à escala das refeições que eram preparadas ali.
Limitações históricas
Como em qualquer cozinha medieval de grande escala, o trabalho era pesado, quente e perigoso. O risco de incêndio era constante. A documentação de rotinas diárias específicas é limitada, mas as características arquitetônicas e os relatos posteriores permitem reconstruir o funcionamento geral.
Aproximação com o Brasil
Castelos e grandes cozinhas históricas são raros no Brasil, mas a lógica de espaços de preparo de alimentos projetados para grandes quantidades e longos períodos de uso aparece em fazendas históricas, em cozinhas de mosteiros e em algumas construções coloniais. O Raby Castle oferece um exemplo extremo de continuidade: quase 600 anos de função ininterrupta no mesmo espaço. Em um país que valoriza a preservação do patrimônio, a história dessa cozinha medieval inglesa inspira reflexões sobre a longevidade dos espaços de trabalho doméstico e coletivo.
A Great Kitchen de Raby não é apenas um ambiente preservado. É a prova física de que uma cozinha bem projetada pode atravessar séculos de mudanças tecnológicas e sociais sem perder sua essência funcional.
A preservação da Great Kitchen permite aos visitantes compreender a escala e a complexidade do trabalho doméstico em um castelo medieval. As fornalhas, a abóbada e os utensílios de cobre não são apenas objetos de museu: são evidências materiais de uma rotina de trabalho que se estendeu por quase seis séculos. Em um momento em que o patrimônio histórico é cada vez mais valorizado, o Raby Castle oferece um exemplo raro de continuidade funcional quase intacta.

