Pesquisadores da Unicamp extraem compostos da casca do cacau com ultrassom e criam mel de abelhas nativas brasileiras com sabor de chocolate que concentra antioxidantes e aproveita resíduo industrial
No laboratório da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, em Limeira, um solvente inusitado — o mel de abelhas...
Por Valéria CristinaPublicado em 25/8/2026 às 22h26

No laboratório da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, em Limeira, um solvente inusitado — o mel de abelhas nativas brasileiras — é colocado em contato com cascas de amêndoa de cacau sob ultrassom. O resultado é um mel com sabor de chocolate que concentra teobromina, cafeína e compostos fenólicos antioxidantes, transformando um resíduo industrial em um produto funcional de alto valor.
A pesquisa, liderada por Felipe Sanchez Bragagnolo e publicada na ACS Sustainable Chemistry & Engineering, utiliza o mel de espécies como jataí, mandaguari, mandaçaia, borá e moça-branca como meio de extração assistida por ultrassom. As cascas, cedidas por produtores de São José do Rio Preto, deixam de ser descarte e passam a enriquecer o mel com os mesmos compostos que dão ao chocolate suas propriedades benéficas.
O processo inovador e os números
O ultrassom acelera a liberação de compostos da casca para o mel sem solventes químicos agressivos. O produto final mantém a viscosidade e a doçura do mel, mas ganha notas de chocolate e uma concentração elevada de antioxidantes e metilxantinas.
Análises laboratoriais confirmaram a presença de teobromina e cafeína em níveis relevantes para benefícios cardiovasculares e cognitivos, além de fenólicos com atividade anti-inflamatória. A patente foi depositada e a Inova Unicamp busca parceiros para licenciamento.
Sustentabilidade e biodiversidade brasileira
O cacau gera grandes volumes de casca no processamento. Aproveitá-la reduz o impacto ambiental da cadeia. Ao mesmo tempo, o uso de méis de abelhas nativas valoriza a biodiversidade brasileira e a meliponicultura, atividade tradicional em várias regiões.
O produto pode ser usado puro, em sobremesas, iogurtes, chás ou como ingrediente em chocolates funcionais. A conexão com a Bahia (principal produtora de cacau) e com as abelhas nativas de diferentes biomas fortalece a identidade nacional do alimento.
Aplicações na cozinha e limitações
Na cozinha, o mel de cacau pode substituir o mel comum em receitas que se beneficiam do sabor de chocolate sem adição de cacau em pó. É ideal para granolas, bolos, molhos e bebidas.
Limitações incluem a escala de produção e o custo ainda elevado dos méis de abelhas nativas. Estudos de estabilidade e aceitação sensorial em larga escala ainda estão em andamento.
A pesquisa da Unicamp, de 2025-2026, mostra como a ciência pode unir resíduo agroindustrial, biodiversidade e gastronomia funcional. O que era casca descartada vira mel com sabor de chocolate e potencial de saúde — mais uma prova de que a inovação brasileira sabe transformar o que a terra oferece.

