Pesquisadores de Campinas transformam bandinhas de feijão carioca em concentrado com 40 a 50% de proteína, eliminam 95% dos antinutrientes e criam alternativa nacional às proteínas de soja importadas

No laboratório do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas, São Paulo, um monte de grãos quebrados de...

Por Valéria Cristina
Publicado em 25/8/2026 às 22h17
Notícias: Pesquisadores de Campinas transformam bandinhas de feijão carioca em concentrado com 40 a 50% de proteína, eliminam 95% dos antinutrientes e criam alternativa nacional às proteínas de soja importadas

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No laboratório do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas, São Paulo, um monte de grãos quebrados de feijão carioca — as chamadas bandinhas — parece apenas residual de beneficiamento. O que poucos sabem é que esses fragmentos, que representam de 1% a 5% da produção e costumavam ter baixo valor comercial, acabaram de se transformar em um dos ingredientes proteicos mais promissores já desenvolvidos no Brasil.

Pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS) conseguiram extrair um concentrado com 40% a 50% de proteína a partir desses grãos descartados. O resultado não só supera padrões internacionais de aminoácidos essenciais da FAO como elimina até 95% dos fatores antinutricionais, elevando a digestibilidade para mais de 60%. A inovação, anunciada em agosto de 2026, posiciona o país como potencial exportador de tecnologia alimentar em vez de dependente de proteínas vegetais importadas.

A descoberta que valoriza o que antes era sobra

O feijão carioca é a variedade mais consumida no Brasil. Presente diariamente nas mesas de milhões de famílias, ele é rico em proteína, fibras, ferro e outros minerais. Porém, durante o processo de classificação e embalagem, uma parcela dos grãos se quebra. Essas bandinhas perdiam valor de mercado e muitas vezes eram destinadas a rações animais ou simplesmente descartadas.

A equipe da PBIS, criada em 2021 com apoio da FAPESP e que reúne o Ital, a USP, a Unicamp, a Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia e nove empresas do setor, decidiu mudar essa realidade. Em vez de usar solventes químicos agressivos, os pesquisadores adotaram o fracionamento a seco: o feijão é moído e separado mecanicamente em duas frações — uma amilácea (rica em amido) e outra proteica.

O processo consome menos água e energia do que métodos tradicionais de extração. Tratamentos térmicos prévios reduzem drasticamente taninos, fitatos e outros compostos que atrapalham a absorção de nutrientes. O resultado final é um pó de cor clara, sem o sabor residual de terra comum em algumas proteínas vegetais, e com perfil de aminoácidos completo. Diferente de muitas proteínas de soja ou ervilha, ele não precisa ser combinado com cereais para atingir o padrão de referência da FAO.

Números que impressionam e aplicações práticas

Os dados laboratoriais são claros. A fração proteica atinge entre 40% e 50% de concentração. A digestibilidade ultrapassa 60%. A redução de antinutrientes chega a 95%. Além disso, a fração de amido, que ainda retém de 10% a 20% de proteína, foi aproveitada para desenvolver snacks doces e salgados enriquecidos.

Na prática, o concentrado já foi testado em cappuccino sem açúcar com 5 gramas de proteína por porção e em bebidas vegetais com polpas de manga e maracujá. A versatilidade abre portas para panificação, suplementos, carnes vegetais e produtos para atletas — um mercado em forte expansão no Brasil.

Para o consumidor final, isso significa a possibilidade de ter, em breve, produtos mais baratos, sustentáveis e nutricionalmente superiores, feitos a partir de um grão 100% brasileiro. O feijão, que já é a base da complementaridade aminoacídica com o arroz, agora ganha uma versão industrial de alto valor agregado.

Impacto na indústria e na segurança alimentar brasileira

O Brasil importa grande parte das proteínas vegetais usadas pela indústria de alimentos. Soja e ervilha processadas chegam de outros países, gerando dependência e custos logísticos. A tecnologia da PBIS inverte essa lógica: transforma um subproduto nacional em insumo estratégico.

Além do aspecto econômico, há o ambiental. Aproveitar as bandinhas reduz o desperdício na cadeia do feijão e diminui a pressão por novas áreas de cultivo. Em um país que ainda enfrenta desafios de insegurança alimentar, cada quilo de proteína extraída de residual tem peso significativo.

A transferência de tecnologia já está em andamento por meio de pacotes tecnológicos. Empresas parceiras podem incorporar o concentrado em suas linhas de produção. O próximo passo é a escala industrial e, eventualmente, a aprovação regulatória para novos produtos.

Como o brasileiro pode se beneficiar no dia a dia

Enquanto o concentrado chega às prateleiras, o estudo reforça a importância do feijão na dieta. Consumir o grão inteiro, de preferência com arroz, já fornece proteína de boa qualidade, fibras e minerais. Técnicas caseiras como o demolho prévio (8 a 12 horas) também reduzem antinutrientes e melhoram a digestibilidade.

Para quem busca alternativas proteicas, o trabalho do Ital aponta caminhos: farinhas de leguminosas, germinados e agora concentrados. Nutricionistas recomendam diversificar as fontes — feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha — e combinar com vitamina C para potencializar a absorção de ferro.

Em São Paulo, Minas Gerais e outras regiões produtoras, a valorização das bandinhas pode gerar renda extra para agricultores e cooperativas. O residual que antes valia pouco passa a ter cotação próxima a ingredientes premium.

Limitações e próximos passos da pesquisa

Apesar dos resultados promissores, o concentrado ainda não está amplamente disponível no varejo. A produção em escala depende da adoção pelas indústrias. Estudos de vida de prateleira, aceitação sensorial em larga escala e custo final ao consumidor ainda estão em andamento.

Pesquisadores alertam que nenhum alimento isolado resolve todos os problemas nutricionais. O concentrado de feijão é uma ferramenta poderosa, mas deve integrar uma dieta equilibrada, rica em vegetais, frutas e grãos integrais.

A plataforma PBIS continua trabalhando em outros ingredientes saudáveis a partir de matérias-primas nacionais. O sucesso com o feijão carioca abre caminho para pesquisas semelhantes com outras leguminosas brasileiras.

A notícia, divulgada em agosto de 2026 por veículos como O Globo, Band e Canal Rural, marca um avanço concreto da ciência nacional aplicada à alimentação. O que era sobra de beneficiamento virou símbolo de inovação: transformar o que o brasileiro já cultiva e consome em solução de alto valor nutricional e industrial.

Com essa tecnologia, o Brasil dá um passo importante para fortalecer sua soberania alimentar e reduzir a dependência de insumos externos. Na mesa e na indústria, o feijão carioca — mesmo quebrado — prova que ainda tem muito a oferecer.

Imagem: concentrado-proteico-feijao-carioca-bandinhas-ital-campinas-40-50-proteina.webp Alt: Concentrado proteico de bandinhas de feijão carioca desenvolvido pelo Ital em Campinas com 40 a 50% de proteína e redução de 95% dos antinutrientes Description: Pesquisadores do Ital, USP e Unicamp transformam grãos quebrados de feijão carioca em concentrado proteico nacional de alto valor, alternativa às proteínas de soja importadas



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Valéria Cristina
Valéria Cristina

Olá, sou a Valeria Cristina, idealizadora do blog de receitas Vó Naoca e como dá pra notar, neta orgulhosa de suas raízes. Hoje compartilho nesse projeto tudo aquilo que aprendi com a famosa Nair. Também faço questão de testar receitas da internet e compartilhar as melhores aqui no blog.




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